Autores:
Abílio Rigueira Domingos – CRMV MG 7365
Gustavo de Castro Bregunci – CRMV MG 7160
Subtítulo:
A Inteligência Artificial não substitui o médico-veterinário – mas redefine seu papel. O profissional do futuro será estrategista, analista e gestor de dados, sem deixar de ser, acima de tudo, o guardião do cuidado animal.
Um novo tempo para a Medicina Veterinária
A Inteligência Artificial (IA) está mudando profundamente o modo como a Medicina Veterinária é praticada, ensinada e gerida.
Do diagnóstico por imagem à triagem clínica automatizada, passando pela gestão hospitalar e pela comunicação com os responsáveis, a IA está presente em quase todas as etapas do atendimento.
Mas ao contrário do medo inicial de substituição, o que se observa é o surgimento de novas funções e competências para o médico-veterinário.
O profissional da era digital deixa de ser apenas executor e passa a atuar como decisor, integrador e intérprete de tecnologia, responsável por garantir que a IA seja aplicada de forma ética, segura e eficiente.
Do clínico ao estrategista de dados
A principal mudança está no modo como o veterinário lida com a informação.
Hoje, clínicas e hospitais produzem grandes volumes de dados clínicos, administrativos e financeiros.
A IA ajuda a coletar, processar e analisar essas informações, mas é o médico-veterinário quem interpreta e decide o que realmente importa.
Esse novo papel exige competências adicionais, como:
- Leitura crítica de relatórios gerados por IA compreendendo suas limitações e possíveis vieses;
- Tomada de decisão baseada em dados, sem renunciar ao julgamento clínico;
- Capacidade de integrar diferentes fontes de informação (laboratoriais, radiológicas e comportamentais);
- Avaliação de risco e custo-benefício de novas tecnologias antes da implementação.
O veterinário torna-se, assim, um curador da inteligência, selecionando o que é útil e filtrando o que é ruído.
O veterinário como gestor de inovação
Com a expansão das clínicas digitalizadas, surge a necessidade de profissionais capazes de liderar processos de transformação tecnológica.
O veterinário moderno precisa compreender o impacto organizacional da IA e atuar também como gestor de inovação – alguém que conecta ciência, tecnologia e prática clínica.
Segundo a McKinsey & Company (2024), empresas que possuem líderes preparados para integrar IA à estratégia institucional têm 70% mais chances de obter ganhos sustentáveis com a digitalização [1].
Na Medicina Veterinária, isso se traduz em clínicas mais eficientes, com processos integrados e atendimento centrado no paciente e no responsável.
Competências emergentes do veterinário digital
A profissão está se expandindo para áreas que há poucos anos pareciam distantes da prática clínica.
Entre as novas funções, destacam-se:
- Analista de dados clínicos: interpreta indicadores de desempenho e resultados terapêuticos auxiliados por IA;
- Especialista em ética e conformidade digital: supervisiona o uso responsável da tecnologia conforme o Código de Ética e a LGPD;
- Consultor de inovação em saúde animal: orienta instituições e empresas sobre a adoção segura e estratégica da IA;
- Educador digital: prepara novas gerações de veterinários para o uso consciente das tecnologias emergentes;
- Integrador humano–IA: supervisiona o desempenho de algoritmos e garante que as decisões automatizadas reflitam princípios médicos e éticos.
Esses papéis ampliam o campo de atuação do médico-veterinário e o colocam no centro da revolução tecnológica em curso.
A inteligência que continua insubstituível
Apesar dos avanços da IA, há dimensões da prática veterinária que permanecem exclusivamente humanas.
Nenhum algoritmo substitui a empatia, o julgamento ético e a sensibilidade emocional necessários para lidar com o sofrimento, a incerteza e as decisões difíceis que fazem parte da rotina clínica.
A IA processa dados; o veterinário compreende vidas.
É essa combinação – tecnologia com sensibilidade – que define o futuro da profissão.
Formar para o futuro
O ensino veterinário também precisa se adaptar.
Universidades e hospitais-escola devem preparar alunos para atuar em ambientes híbridos, nos quais o domínio técnico da IA é tão importante quanto o raciocínio clínico e a comunicação com os responsáveis.
Cursos de ética digital, ciência de dados e inteligência artificial aplicada à saúde animal já começam a surgir como disciplinas obrigatórias em instituições de ponta [2].
O veterinário do futuro será, ao mesmo tempo, cientista, gestor e humanista.
Conclusão
A Inteligência Artificial não diminui o papel do médico-veterinário – ela o engrandece.
Ao delegar tarefas repetitivas à tecnologia, o profissional ganha tempo e clareza para exercer aquilo que nenhuma máquina faz: cuidar com empatia, decidir com sabedoria e ensinar com propósito.
O veterinário da era da IA é, acima de tudo, um líder de transformação, capaz de unir ciência e sensibilidade para construir uma Medicina Veterinária mais precisa, ética e humana.
Referências
- MCKINSEY & COMPANY. The State of AI in 2024: Generative AI’s Breakout Year. McKinsey Global Institute, 2024.
- LONGHURST, G. J.; STONE, D. M. Artificial Intelligence and Simulation in Veterinary Education. Frontiers in Veterinary Science, v. 11, p. 1349188, 2025.
- DAVENPORT, T.; KIRBY, J. The Human Side of AI: Building Empathy in Digital Health. Harvard Business Review, 2024.
- XIAO, S. et al. Review of Applications of Deep Learning in Veterinary Diagnostics and Animal Health. Frontiers in Veterinary Science, v. 12, p. 1511522, 2025.

