Autores:
Abílio Rigueira Domingos – CRMV MG 7365
Gustavo de Castro Bregunci – CRMV MG 7160
Subtítulo:
Mais do que uma transformação tecnológica, a implantação da Inteligência Artificial na Medicina Veterinária exige uma mudança de mentalidade — das equipes, das lideranças e da própria cultura organizacional.
Quando a resistência fala mais alto que a inovação
Em clínicas e hospitais veterinários, a introdução de novas tecnologias costuma despertar entusiasmo, mas também insegurança.
A Inteligência Artificial (IA) — aplicada a laudos automáticos, scribas clínicos, prontuários digitais e atendimento por chatbots — é um exemplo claro dessa dualidade.
Muitos profissionais reconhecem o potencial, mas temem a complexidade, o custo ou a ideia de “substituição humana”.
Na prática, a barreira não é tecnológica — é cultural.
Estudos recentes mostram que mais de 70% dos projetos de transformação digital falham não por falhas técnicas, mas por resistência interna, falta de engajamento e medo da mudança [1].
Por que mudar a cultura é o primeiro passo
A implementação da IA exige uma cultura organizacional baseada em abertura ao aprendizado, colaboração e confiança nos dados.
Isso significa substituir a gestão por opinião pela gestão por evidências.
Nas clínicas veterinárias, essa mudança envolve:
- Compreender o propósito da tecnologia, mostrando que a IA é uma aliada, não uma ameaça;
- Treinar equipes para usar e interpretar corretamente os dados gerados por sistemas inteligentes;
- Rever processos internos, integrando o digital à rotina administrativa e clínica;
- Estimular o pensamento crítico, para que a equipe entenda o “porquê” por trás das recomendações da IA.
Essa transição é fundamental para que o investimento em tecnologia realmente traga resultados clínicos e financeiros.
O papel da liderança veterinária
Nenhuma mudança cultural acontece de baixo para cima.
A liderança precisa ser o exemplo e o facilitador da inovação.
Gestores, diretores clínicos e coordenadores de setor devem:
- Incentivar o uso dos sistemas de IA na rotina;
- Reforçar a importância da ética e da transparência no uso dos dados;
- Mostrar, com resultados reais, os benefícios obtidos — como economia de tempo, redução de erros e melhora no atendimento ao responsável.
Mais do que delegar, o líder deve participar ativamente do processo de transformação, construindo um ambiente de segurança psicológica onde a inovação possa florescer.
Quando a cultura se adapta, os resultados aparecem
Clínicas que conseguiram integrar a IA ao dia a dia relatam ganhos expressivos:
- Aumento da produtividade administrativa, com scribas automáticos e prontuários inteligentes;
- Melhor previsibilidade de agenda e consumo de insumos, com sistemas preditivos;
- Maior engajamento dos responsáveis, graças à comunicação automatizada e contínua;
- Decisões mais rápidas e baseadas em dados, sem perda do raciocínio clínico individual.
Esses resultados só são sustentáveis quando existe aceitação cultural, ou seja, quando a equipe entende e confia na tecnologia.
Educação e empatia como pilares da transição digital
A capacitação técnica é importante, mas insuficiente sem o aspecto humano.
A verdadeira transformação acontece quando há empatia com o processo de aprendizado — permitindo que os profissionais expressem dúvidas, testem, errem e evoluam juntos.
Assim como o cuidado com o paciente exige sensibilidade, a adoção da IA exige liderança empática e didática.
Mudança cultural não se impõe: se constrói, com tempo, paciência e diálogo.
Conclusão
A Inteligência Artificial representa o futuro da Medicina Veterinária, mas o sucesso de sua implementação depende de algo mais básico: a disposição para mudar a forma de pensar e trabalhar.
O maior desafio não está nos algoritmos, mas nas pessoas — e é justamente nelas que reside o maior potencial transformador.
Quando a cultura se alinha à tecnologia, a inovação deixa de ser um risco e passa a ser uma vantagem competitiva.
Referências
- MCKINSEY & COMPANY. The State of AI in 2024: Generative AI’s Breakout Year. McKinsey Global Institute, 2024.
- DAVENPORT, T.; KIRBY, J. Just How Smart Are Smart Machines? Harvard Business Review, 2023.
- WESTERMAN, G.; BONNET, D.; MCAFEE, A. Leading Digital: Turning Technology into Business Transformation. Harvard Business Press, 2021.
- XIAO, S. et al. Review of Applications of Deep Learning in Veterinary Diagnostics and Animal Health. Frontiers in Veterinary Science, v. 12, p. 1511522, 2025.

